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HistóriaTexteRevue GÉNÉALO-J n°135, automne 2018 (étude couvrant le XIIIᵉ–XXᵉ siècle)

Des passeurs de pensée juive d’origine hispano-maghrébine : la lignée Encaoua

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Publicado na revista GÉNÉALO-J n.º 135 (outono de 2018), editada pelo Cercle de Généalogie Juive, este artigo de David Encaoua, economista e professor emérito da Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, reconstitui o itinerário intelectual e espiritual de quatro figuras maiores da lignée Encaoua (variantes: Al-Naqua, Alnakaoua, Ankaoua, Ankawa, Enkaoua, N'Kaoua). O autor, ele próprio descendente desta lignée hispano-argelino-marroquina, forja a noção operatória de «passeur de pensée juive» para designar pessoas que, ao mesmo tempo, estruturaram a sua comunidade, produziram obras de filosofia ou de direito rabínico de alcance duradouro, e criaram pontes culturais entre terras cristãs e terras do Islão. Quatro figuras, separadas por mais de seis séculos, são reunidas em torno de um fio condutor: a transmissão de uma herança castelhana que conjuga rigor talmúdico e abertura à modernidade. A lignée tem raízes em Toledo no século XIII, onde Yéhouda e Shmuel Al-Naqua, notáveis ligados à corte de Afonso IX, foram falsamente acusados de roubo e executados por volta de 1200 — a sua inocência só foi reconhecida três dias após a sua execução na forca. Um século e meio mais tarde emerge a primeira grande figura: Israël ben Yossef Al-Naqua (?-Toledo 1391), grão-rabino de Castela, autor do Menorat ha-Maor (O Candelabro da Luz), obra de ética em dezanove capítulos precedidos de poemas acrósticos, cujo manuscrito original está conservado na Bodleian Library de Oxford. Morreu queimado vivo em junho de 1391 nos massacres antijudeus de Toledo, segurando um Sefer Torah. O seu filho Ephraïm ben Israël Al-Naqua (Toledo 1359 – Tlemcen 1442), o «Rab de Tlemcen», abandona Espanha após a morte do pai e, depois de uma passagem por Marrakech e Honein, funda em Tlemcen a comunidade judaica que marcará duradouramente a Argélia até 1962. Filósofo, médico e poeta, defende na sua obra principal Chaar Kevod Hachem (O Pórtico à Glória do Nome) as teses racionalistas de Maïmonide contra Nahmanide, sustentando que o pensamento bíblico e o pensamento racional são indissociáveis. Médico oficial do sultão — que curou segundo a tradição — taumaturgo chegado a Tlemcen montado num leão refreado por uma serpente, estabeleceu sinagoga e academia talmúdica, e obteve o direito de os judeus saírem do enclave de Agadir para se instalarem intra-muros. Sepultado em 1442, o seu túmulo permaneceu até 2005 um lugar de peregrinação judaica e muçulmana; um mausoléu foi reinaugurado em 2013 em Tlemcen, homenagem prestada nomeadamente por François Hollande durante a sua visita em 2012. Três séculos mais tarde, Abraham Ankawa (Salé 1810 – Oran 1890), cognominado «Ha-Gaone», encarna o passeur itinerante das margens mediterrânicas no século XIX. Erudito, shohet e dayan, viaja entre Salé, Oran, Mascara, Tlemcen, Livorno (onde se instala em 1838 e depois em 1858 para publicar), Jerusalém e Gibraltar. A sua obra maior, Kerem Hemer (Uma admirável vinha), publicada em Livorno em 1869-1871 em dois volumes, reúne as taqqanot (ordenanças comunitárias) dos juízes castelhanos instalados em Marrocos após 1492 e contém o Sefer ha-Takkanot dos rabinos de Castela publicado em Fez em 1494. A historiadora Jessica Marglin (2014) vê nele um pioneiro de uma abordagem «transnacional e trans-histórica» do direito judaico: apoiado no princípio haláquico dina de-malkhuta dina, Ankawa fez frequentemente prevalecer o direito civil francês sobre o direito rabínico em matéria de estatuto pessoal, convicto de que a adaptação às leis do país de acolhimento condicionava a perenidade da lei judaica. As suas posições valeram-lhe a hostilidade do rabino Moshé Sebaoun de Oran e uma demissão forçada de Mascara em 1878. A quarta figura, Raphaël Encaoua (Salé 1848 – Salé 1935), chamado o «Anjo Raphaël» ou REM (Raphaël filho de Mordekhaï), torna-se em maio de 1918 o primeiro presidente do Alto Tribunal Rabínico de Marrocos instituído pelo dahir do Residente Geral Lyautey. Agraciado com a Légion d'honneur em 1929 por Lucien Saint, autor nomeadamente de Karné Rem (Jerusalém 1910), Paamoni Zahab (Jerusalém 1912), Toafot Rem (Casablanca 1930) e Hadad Vé-Téma, unificou a jurisprudência rabínica das comunidades marroquinas sob o protetorado. O seu enterramento em agosto de 1935 foi, segundo o Journal du Maroc, a maior manifestação espontânea do judaísmo marroquino; foi pranteado como o Ner Hamaarav (Luz de Marrocos). Para além da biografia, o artigo propõe uma onomástica rigorosa do patronímico (Al-Naqua → Ankaoua/Encaoua), discute as hipóteses etimológicas (hebraica «esperança em Deus», árabe «pureza», ou nome berbere segundo Maurice Eisenbeth 1936), e apoia-se num rico aparelho crítico: Jewish Encyclopedia, Encyclopedia Judaica, Alexander Beider, Abraham Laredo, Moïse Schwab, Colette Sirat, Paul Fenton, Simon Schwarzfuchs, Valérie Assan, Kenneth Brown, Jessica Marglin. Ao restituir estas quatro vidas unidas pela herança castelhana, David Encaoua articula mémoire familiale e história coletiva, e defende que a componente sefardita do judaísmo não seja reduzida aos seus aspetos folclóricos, mas reconhecida nas suas contribuições filosóficas, jurídicas e éticas maiores.

Um livro ainda por escrever

Este Grande Livro ainda não foi escrito. A sua redação começa aqui mesmo: Claude compõe uma obra original a partir das peças de arquivo do corpus e de uma pesquisa na web, e depois enriquece-a com cada nova fonte contribuída.

Fontes & recursos

  • David Encaoua, Des passeurs de pensée juive d'origine hispano-maghrébine : la lignée Encaoua, Cercle de Généalogie Juive, Paris
  • Jewish Encyclopedia, Rubrique « ALNAQUA »
  • Encyclopedia Judaica
  • Alexander Beider, A Dictionary of Jewish Surnames from Maghreb, Gibraltar and Malta, Editions Avotaynou (2017)
  • Abraham I. Laredo, Les noms des juifs du Maroc, Essai d'onomastique judéo-marocaine, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Instituto Benito Arias Montano (1978)
  • Maurice Eisenbeth, Les Juifs de l'Afrique du Nord, Démographie et Onomastique (1936)
  • Moïse Schwab, Séfarad IV (1944)
  • Moïse Schwab, Rapport sur les inscriptions hébraïques d'Espagne
  • F. Cantera & J.-M. Millás, Inscripciones hebraicas de España, C.S.I.C. (1956)
  • Shlomo Ibn Verga, Šhevet Yéhouda (1550)
  • Cecil Roth, A Hebrew Elegy of the Martyrs of Toledo 1391 (1948)
  • Norman Roth, 1391, In the Kingdom of Castille, Attacks on the Jews (2011)
  • Alexander Marx, Texts by and about Maimonides (1935)
  • Colette Sirat, La pensée philosophique d'Ephraïm al-Naqawa (1980)
  • Paul Fenton, La controverse entre Maïmonide et Nahmanide
  • Jessica Marglin, Mediterranean Modernity through Jewish Eyes: the Transimperial Life of Abraham Ankawa (2014)
  • Simon Schwarzfuchs, Les Juifs d'Algérie et la France (1830-1855), Institut Ben Zvi, Centre de recherches sur les Juifs d'Afrique du Nord (1981)
  • Les Juifs d'Algérie, une histoire de ruptures, Presses Universitaires de Provence (2015)
  • Valérie Assan, Les synagogues dans l'Algérie coloniale du XIXᵉ siècle (2004)
  • Emancipation and Its Discontents: Jews at the Formative Period of Colonial Rule in Morocco (2006)
  • Kenneth Brown, Une ville et son mellah : Salé (1880-1930), La Pensée sauvage (1980)
  • À l'ombre du Rab, le souvenir de Tlemcen, La Fraternelle, Union Nationale des Amis de Tlemcen (2005)
  • Israël ben Yossef Al-Naqua, Menorat ha-Maor (Le Chandelier de Lumière)
  • Ephraïm ben Israël Al-Naqua, Chaar Kevod Hachem (Le Portique à la Gloire du Nom)
  • Abraham Ankawa, Kerem Hemer, Livourne (1869-1871)
  • Abraham Ankawa, Zevahim Chelamim, Livourne (1858)
  • Raphaël Encaoua, Karné Rem (Les cornes du buffle), Jérusalem (1910)
  • Raphaël Encaoua, Paamoni Zahab (La clochette d'or), Jérusalem (1912)
  • Raphaël Encaoua, Toafot Rem, Casablanca (1930)
  • Raphaël Encaoua, Hadad Vé-Téma, Jérusalem (1977)

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