Yosef Hayim Yerushalmi (1932–2009) — Quatro conferências Stroum, Universidade de Washington, 1980. Publicado em 1982. Traduzido para francês por Eric Vigne (Gallimard, 1984).
O próprio nome da nossa plataforma, Zakhor (זָכוֹר, «souviens-toi»), é tomado ao livro fundador de Yosef Hayim Yerushalmi, professor em Columbia, titular da cátedra Salo Wittmayer Baron de história, cultura e sociedade judaicas. Apresentado como conferências Stroum na Universidade de Washington em 1980 e publicado em 1982 sob o título Zakhor: Jewish History and Jewish Memory, este pequeno volume de quatro ensaios renovou em profundidade a maneira como judeus e não-judeus pensam a transmissão, o arquivo e a responsabilidade de recordar.
Este livro não é apenas a nossa referência intelectual: é a matriz do nosso método. Yerushalmi mostra nele que a memória (a zikkaron litúrgica, transmitida no rito e na narrativa) e a história (a ciência crítica das fontes, nascida no século XIX) não são a mesma coisa, não dizem a mesma coisa, não se substituem uma à outra. O nosso site procura mantê-las juntas sem as confundir — exatamente a aposta de Yerushalmi.
Yerushalmi recorda que o verbo zakhar (זכר, «recordar») e o seu substantivo zakhor («souviens-toi») aparecem 169 vezes na Bíblia hebraica. O mandamento é martelado: «Lembra-te do que te fez Amalek» (Deut 25,17), «Lembra-te do dia de Sábado» (Êx 20,8), «Lembra-te dos dias de outrora» (Deut 32,7). Israel é constituído como povo pela e para a memória.
Mas — e este é um dos paradoxos que Yerushalmi traz à luz — a Bíblia ordena recordar sem nunca ordenar escrever a história no sentido grego, herodotiano, do termo. Os Hebreus não escrevem Histórias à maneira de Tucídides. A sua relação com o passado passa pela liturgia, pelo relato pascal, pela leitura pública da Torah, pela hagiografia, pela lamentação das destruições do Templo — não pelo trabalho crítico do historiador.
Yerushalmi observa uma rutura decisiva: a partir da década de 1820, na Alemanha, nasce a Wissenschaft des Judentums («ciência do judaísmo»), levada por Leopold Zunz, Abraham Geiger, Heinrich Graetz, e depois Salo W. Baron — o mestre americano do próprio Yerushalmi. Pela primeira vez, judeus escrevem a história do seu povo segundo os cânones académicos modernos: erudição filológica, exame crítico das fontes, historicidade contra lenda.
Esta revolução é um ganho imenso — sem ela, nem a redescoberta dos manuscritos da Genizah do Cairo, nem o decifrar das inscrições hebraicas antigas, nem a cartografia das diásporas teriam sido possíveis. Mas Yerushalmi coloca a pergunta perturbadora: o que perdemos? O historiador moderno, ao substituir a memória pela história, ao desqualificar as lendas hagiográficas em nome das fontes criticadas, talvez tenha rompido um fio que a liturgia segurava havia séculos. Sabe muito. Transmite de outro modo.
«Pela primeira vez, escreve Yerushalmi, a história — e já não uma memória viva — tornou-se o mediador principal entre o judeu e o seu passado.»
O quarto e último ensaio do livro — «Dilemas do historiador judeu na época contemporânea» — confronta o pós-Shoah. Yerushalmi constata nele com lucidez que nunca tanta história judaica foi escrita, e nunca tão pouca memória judaica foi transmitida. As universidades produzem teses; as comunidades esquecem. Os arquivos abrem-se; os ritos apagam-se.
Yerushalmi identifica um risco específico: aquele em que a memória coletiva, privada dos seus quadros rituais e litúrgicos, se refugiaria apenas na transmissão familiar («os meus avós sobreviveram a...»), ou apenas na comemoração oficial (Yom HaShoah, monumentos, museus) — com o risco de se tornar simultaneamente demasiado privada para fazer povo, e demasiado pública para ser habitada.
A sua conclusão é trágica e lúcida. Não propõe uma solução, mas uma tarefa: reconhecer o corte, não o mascarar, e procurar — pacientemente, sem nostalgia beata nem positivismo estreito — práticas novas que permitam à memória e à história alimentarem-se uma à outra em vez de se excluírem.
Três princípios operacionais estruturam Zakhor.ai a partir de Yerushalmi:
«Se o judaísmo rabínico não criou uma historiografia, é talvez porque dela não precisava. A sua memória, viva e fecunda, bastava-lhe. O que já não nos é, a nós modernos, possível.» — Y. H. Yerushalmi
Nascido em Nova Iorque em 1932 numa família originária da Europa central, Yosef Hayim Yerushalmi estuda na Yeshiva University, depois em Columbia junto de Salo Wittmayer Baron, o grande historiador da Social and Religious History of the Jews (18 volumes). Ensina em Harvard de 1966 a 1980, sucedendo depois ao seu mestre na cátedra Salo Baron de Columbia, que ocupa até à sua reforma em 2008.
Especialista dos judeus sefarditas da época moderna — a sua tese e primeiro livro versam sobre Isaac Cardoso, médico e apologeta marrano português do século XVII —, Yerushalmi escreveu também sobre Sigmund Freud (Freud's Moses: Judaism Terminable and Interminable, 1991), sobre as Páscoas judaicas através das Hagadot ilustradas, sobre a servidão judaica medieval, sobre a memória e o esquecimento.
Falece em 2009 em Nova Iorque. O seu livro Zakhor permanece, quase meio século após a sua publicação, um clássico ensinado em todas as grandes universidades do mundo — e a fonte de todo o debate contemporâneo sobre a memória judaica.